sexta-feira, 9 de abril de 2010

A LOUCURA PRÓPRIA ENTRE SEUS PARES... Encontro erudito De: Cristiane Mesquita Gomes

Acordei na madrugada... O quarto cheio... Um leve burburinho. Risos soltos entre a fumaça dos charutos. O ar pesava entre as conversas paralelas de vários intelectuais.

Ali estava reunida gente de todos os lugares e dos dois mundos.

Gente que ainda vive sobre a terra e gente que há muito desencarnou.

Era uma conversa animada em clima medieval, mas a cena era atemporal. Poucas mulheres e ,entre elas, eu!

Vestíamos vestidos compridos, e justos no busto. Os homens vestiam calções soltos debaixo da túnica, além de vários tipos de coberturas para as pernas. As mulheres punham redes nos cabelos, usavam véus e panos para cobrir o pescoço. Os homens usavam na cabeça capuzes com pontas compridas. Tanto os homens quanto as mulheres vestiam uma sobreveste copiada dos trajes dos cruzados. Era um ambiente luxuoso e surreal. Comportado e atrevido ao mesmo tempo. Revestimento em madeira com enquadramento adornado de dourado. Por todo o ambiente, afrescos que retratam cenas pitorescas de um tempo esquecido e muito antigo. Era uma antítese do que fora de fato a Idade Média, talvez uma sátira à ideia de tempo de trevas e da improdutividade epistemológica.

Muitos rostos conhecidos, intelectuais de todas as ordens, poetas, filósofos, matemáticos, atores, atrizes, enfim, incontáveis personalidades em conversas exaltadas e animadas.

Pude reconhecer de imediato o sibilar de Clarice Lispector, doce, leve e ensandecida. Tudo ao mesmo tempo em uma só criatura. Um vendaval de emoções. Seus cigarros se emendavam, um no outro para que a névoa do pensamento não se apagasse enquanto recordava com o poeta chileno Pablo Neruda “o beijo caído das alturas invencíveis de sua saudade definida como solidão acompanhada, que ama um passado que não passou, recusando o presente que machuca, cego ante ao convite do futuro, talvez pretendendo responder à pergunta de onde está o menino que ele foi.”

Indaga então Clarice:

-Neruda, caríssimo, e eu, onde estou? Que saudade de mim! “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Neruda gargalha e faz galhofa crendo que Lispector tinha consciência do seu ser diferente e de sua “loucura” conveniente e deveras sapiente.

Então, não mais que de repente interrompe o Fernando Pessoa, compreendendo a dimensão poética da loucura... A loucura ou o fingimento remete ao duro pensamento dele mesmo quando afirma:

-Neruda, meu caro maestro da palavra... “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.”

E eu que entrei no ambiente agora, já eletrizada pelo clima divagativo de elogios à loucura, digo então...

-O que são os versos se não dores disfarçadas...

No seguinte momento agiganta-se o ser da Pessoa que assume não se saber e diz:

-Ouçam todos! “Que grande sonho Ser quem não sabe quem é”. O que penso sobre minha pessoa e as outras entidades do meu ser...

E ele diz a seu próprio ser na pele de Caeiro:

- “Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação”...

E os loucos não cessam por aí... Não é que em um cantinho, acabrunhado por um momento eleva-se em discurso eloqüente meu nobre mestre Ribamar Fiquene, que, lembrando-se de uma de suas crônicas semanais, alardeia:

- O que é a definição de ser se na realidade o concreto se apresenta em cenas cotidianas onde... “A solidariedade se apresenta ligeira, quando a dor contamina, indistintamente, os protagonistas da comédia humana”.

Eu logo pergunto:

-Ora, ora! Então loucura, poesia, solidariedade e comédia estão imbricados nesse contexto poético?

O nobre escritor responde:

-Minha cara professora, a poesia é só a ressonância leve de todas as mais pesadas verdades (risos).

Mas, ao tratar-se de comédia humana, surge o inigualável Balzac, o grande mentor do termo que perfila pérfidos comentários das cenas humanas. Em sua parva eloqüência assume dizendo:

- Nobres pensadores...“Um Eu demasiado poderoso é uma prisão da qual um homem deve evadir-se se deseja gozar plenamente os bens deste mundo.”

O burburinho se inflama após a intromissão de Honoré de Balzac, que chama Voltaire para a discussão.

Balzac então sussurra aos ouvidos do mais louco dos seus conterrâneos:

- Diga-me, nobre filósofo, no intelecto do sistema social cabem soberbas conjecturas sobre os desmandos humanos em sua loucura?

Como o mais maravilhoso entre os loucos, Voltaire, nos desnudou de nossas máscaras... Assumiu que somos uma fraude autêntica quando ventilou com deboche a resposta por entre os dentes, fitando os olhos de Honoré:

-Balzac! O mais rebelde entre os franceses... Digo-te algo em curtas palavras... “Uma frase inteligente não prova nada.”

Risos soltos e gargalhadas encheram o ambiente de curiosidade por parte de todos sobre os temas em questão. Eis que surge o sutil Saramago, poeta português que dita a forma do momento poético atual:

-Caros pensadores...“Em vez de ouvirem os escritores em busca de respostas sobre o que somos, as pessoas precisam ouvir umas às outras, porque nós, autores, não somos mais do que meros trabalhadores da palavra.”

Franzindo a testa, sai de fininho o Voltaire retrucando entre os dentes as exageradas gargalhadas de Balzac:

-Soberbo Francês! Não sabe ele que... “Sob o riso do mundo desfila o ridículo da humanidade.”

Acompanhando o distanciamento do filósofo francês, Saramago, enrubescido, chama pelo poeta libanês que estava próximo e solicita:

-Pois então Gibran, o que pensas sobre o que dissemos sobre a palavra?

Responde com firmeza, de poeta para poeta:

-“Se eu conhecesse a causa da minha ignorância, seria um sábio.”

Gibran, humilde, desinteressado em disputas epistemológicas, vira-se para Clarice e se distrai por um instante com o mundo mágico que é só dela.

Eis que se apresenta um mineirinho, o professor Darcy Ribeiro solicitando um parêntese...

-Saramago, meu filho, Gibran no alto de sua nobre alma jamais admitiria uma opinião cabal sobre assunto tão prolixo, mas se me permite dizer, já que o assunto é a “palavra”, a exemplo do que se vê no Brasil hoje, “mestrado é só para o sujeito mostrar que é alfabetizado, pois metade dos que estão na universidade não sabem ler. Ei!! Durant!! Diz aí teu pensar sobre esse tema...

O escritor americano Will Durant então se aproxima da animada conversa entre Balzac, Saramago, Fiquene e Ribeiro. Responde assim à intrépida solicitação:

-Darcy Ribeiro, meu polêmico sociólogo! Posso então acrescentar que “A educação é o descobrimento progressivo de nossa ignorância.”

Todos concordam e Fiquene relembra:

-Meu nobre Durant! Atenta: “Educar é prevenir o futuro.”

Em um determinado momento, animada com os palpites, arrisquei o meu também vomitando belas palavras que se pretendiam cravadas, um dia, em meu túmulo que diziam...

-Quando se houver extinguido toda a ignorância do mundo... Nada mais haveremos de extinguir.

Um ator americano, que eu sequer conhecia, gritou uma parte para o meu comentário:

-“Todo mundo é ignorante, só que em assuntos diferentes.”

Logo remedei minha ousada frase, citando Montesquieu, quando disse:

-“É preciso estudar muito para saber um pouco.”

Saramago volta à cena lembrando-se de outro louco magnífico:

-Rememoremos o inquestionável Aristóteles quando sugere que... A grandeza não consiste em receber as honras, mas em merecê-las”.

Balzac por muito tempo calado, já um tanto embriagado, vira-se abruptamente em busca de mais vinho e tropeça no célebre matemático inglês Bertrand Russell, que, estando atento aos comentários anteriores, fuzila Honoré com duras palavras:

-Presta atenção, Balzac! Guarda o que te digo agora...“Quão frágil e inerme é a razão. No entanto, é nosso único instrumento.”

Saramago, que não gosta de birras e rixas, reconhece Albert Einstein e solicita sua participação na conversa:

-Einstein!! Meu caro! O que dizes para apaziguar tão ásperos comentários?

O excêntrico pensador mostra a sua língua, fazendo pouco dos demais, e então afirma:

-Não tenho tempo para devaneios filosóficos, mas penso que... “A mais grave das faltas é não ter consciência de falta alguma.”

E volto a Lispector que depois de levar Gibran a um sono profundo, fixa os olhos em Neruda, segura seu queixo com delicadeza e sussurra quase dentro de sua boca:

-Neruda... Não ouse esquecer o que agora te digo! “O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo”.

Pablo Neruda, o sedutor, sela um pacto de silêncio com Clarice ao calar-lhe a boca com um doce beijo.

Um famoso orador latino, Sêneca, assistindo à cena, lamenta com célebre frase:

-Excelentíssima poeta! Fique atenta aos falsos encantos de Pablo Neruda. “Ninguém consegue usar máscara por muito tempo”.

Goethe, em aplausos à ousadia de Neruda, segura com força o braço de Sêneca e o desafia à uma nova interpretação da cena.

-Ouvi, Sêneca, pois só te direi uma vez!: “Seja lá o que você souber fazer, faça. Existe gênio, poder e mágica na audácia.”

Mahatma, auferido por Fiquene acena em direção à Sêneca e enfatiza a insatisfação de Goeth ao dizer:

-“O único tirano que aceito neste mundo é a voz silenciosa dentro de mim, a consciência.”

Kierkegaard, distante em um canto da mágica sala, pede licença à Miguel de Cervantes e ajunta em pensamentos:

-Gandhi, meu nobre! Se me permite um adendo: sobremaneira, “Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. E aventurar-se no sentido mais elevado é precisamente tomar consciência de si próprio.”

Miguel, que o seguira, não deixa por menos e retruca:

-“A inveja sempre vê tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em coisas grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas.”

As duras palavras do espanhol assustam e convidam a talentosíssima diva do cinema nacional brasileiro Fernanda Montenegro a consubstanciar com os demais pensamentos:

-Lispector, não te deixe acabrunhar pelas palavras incandescentes dos covardes: “A palavra não é apenas um conjunto de sinais gráficos. Nela há sangue, suor e lágrimas.”

Fernanda abraça docemente Clarice Lispector e acaricia a face de Neruda, os causadores da cena polêmica.

Eu, nesse instante, conversava baixinho com a filósofa Simone de Beauvoir que me convencia da subserviência feminina de outrora e também hodierna...

Dizia Simone: “Não se nasce mulher. Vira-se. A verdadeira mulher é um produto artificial que a civilização fabrica como outrora se fabricavam os castrati. Seus pretensos instintos de coqueteria, de docilidade, lhe são insuflados como ao homem é insuflado o orgulho fálico.”

Absorvida pelo profundo pensar da grande companheira de Sartre fui abduzida pela cena intrigante que compreendia Clarice e o querido Neruda.

A essa altura, todos na sala comentavam ao mesmo tempo sobre o ocorrido, uns gritavam: Bravo!! Bravíssimo!! Outros criticavam... Mas um entre eles ainda não havia se pronunciado... O escritor tcheco Franz Kafka, que, dirigindo-se à Neruda, diz com calor no coração e ternura nos olhos:

-Atenta, Pablo, para o que vou dizer-te: “Os homens tornam-se maus e culpados porque falam e agem sem antever os resultados de suas palavras e atos.”

Uma valsa ressoa ao fundo... Ah! É Beethoven, o mais louco dos insanos... Como seria essa peça teatral sem Beethoven?

Então Saramago cumprimenta um conterrâneo, Manoel Torga que, ao abraçar o amigo, completa a retórica sobre a poesia e a loucura:

-Saramago! Meu amigo! Só não te esquece de que “O poeta é um rebelde que sabe que a poesia só subverte porque transfigura.”

Eis que adentra no recinto o famoso e mais profundo dos pensadores... Sócrates. Traz consigo muitas uvas, vinhos e jovens mancebos e sob os aplausos da mais refinada plateia esbraveja em maiêutica agonia epistêmica:

-“Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.”

Um silêncio profundo e desconexo pesa no ar desse ambiente.

Continua Sócrates

-“Conhece-te a ti mesmo.”

Todos o aplaudem e eu, entusiasmada, abandono as finas e delicadas mãos de Simone afastando-me da filósofa moderna para ir ao encontro do antigo e sarcástico pensador. Então interpelo o magnífico mito:

-O que sabes de nós? Que sentido tem tudo? Quem somos então Sócrates?

Com o mais implacável sarcasmo o filósofo me diminui ao responder.

-“Só sei que nada sei.”

Mas, sem querer me dar por vencida na ciranda das vaidades eu insisto em saber:

-Caríssimo Sócrates, pela honra da ontologia que nos cabe, defina-nos, eu te imploro!

O magnífico responde:

-“A maneira mais fácil e mais segura de vivermos honradamente, consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser.”

O ping-pong de perguntas e respostas evasivas continua...

- Diga-nos sobre o bem e o mal pelo menos...

Sócrates define...

-“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância.”

Ruborizo e percebo-me perdida ante à magnífica pessoa que espreme meu cérebro e embaraça-me com sabedoria. Ao perceber o meu rubor o filósofo engolfa-me outra vez com seus pensamentos maiêuticos e finaliza:

-“O próprio sábio cora das suas palavras, quando elas surpreendem as suas ações.”

Eu então solicito ao maestro que toque para que todos dancem e confraternizem-se.

Surge a música apaziguadora de todas as intempéries discursivas, o Danúbio Azul, de Strauss. A névoa se dissipa e meu rubor exprime a vergonha do nada saber.

A música vai se distanciando de meus ouvidos...

As imagens se desfazem em fumaça...

Os risos parecem ecos ao léu...

Acordo de um sono profundo com o meu pai (outro grande pensador, Manoel Gomes) me chamando...

-Ei moça! Está na hora da partida...

Eu me recuso argumentando meio sonada:

-Não pai!! Todos os pensamentos couberam aqui... Eu vi e ouvi tantos... Aprendi que ainda não sei nada! Poderia sonhar a vida toda com aqueles monstros do grande pensar. É tão mais fácil sonhar papai! É tão mais fácil analisar a própria fraude! É como olhar-se no espelho e desnudar-se... Só as verdades do que não somos é que se mantêm edificadas.

Uma lágrima rola pelo meu rosto com expressão aturdida, e o pai diz:

-Ei! Minha filha, foi só um sonho... Calma!! Lembra-te quando eu disse que “...recordaria apenas de alguns galhos da Árvore do Meu Eu que adquiriram de sua gema a responsabilidade de desenvolverem-se e darem bons frutos? Pois é! Assim será porque os outros galhos murcharam e caíram no esquecimento, não para serem apenas lixo sobre a terra, mas sim para adubarem e permitirem que a Árvore do Meu Eu continue a sua presença nesta vida com todo o vigor”... Então! Vai lá e supera! Dê continuidade à ciranda constante do devir.

Qualquer coisa volta!! Eu estarei sempre aqui!

Então... Aceitei a partida e encetei mais uma jornada ao breu incógnito do incognoscível.

FIM

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