terça-feira, 28 de dezembro de 2010

अरोमा दे inverno

As primeiras chuvas de dezembro acordam os lírios do campo...
Os lírios adornam o cenário selvagem...
A terra enfeita-se para a nova estação,
exalando seu cheiro úmido...
Irresistível fragancia de aconchego...
Aroma de inverno, por fim!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Teus olhos


Em teus olhos eu esqueço o medo
Teu olhar abduz meus segredos...
Tua iris cor de mel...
Meu céu!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

LUAS

Luas de minha saudade,
Luas do meu passado,
Luas de insanidade...

Luas que em meu céu brilhavam,
Luas que em meu ser habitavam,
Luas que me completavam...

Luas com quem sonhei,
Luas que me confortavam,
Luas que eu amava...

Luas onde eu me descobri,
Luas de sereno canto,
Luas de onde eu me evadi...

Luas de aconchego quente,
Luas de histórias incontáveis,
Luas que na contramão se fazem gente.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

MANTRA DE ALCANTARA

um dia de luz,
o sol ardendo,
calor fazendo juz.

um guará arremetendo,
sobre o mangue verdejante,
um vento norte batendo lento.

na ladeira íngrime,
a caixeira ressoa seu canto,
musicalidade firme
ao mordomo santo.

um nobre valente,
um doce de especie,
uma ruína vazia.

um zumbido, um mantra,
local de sabor e magia,
um instante em Alcantara.

Planeta Alcântara

Se possível fosse… Alcântara um planeta…
Pequeno e disponível aos escolhidos,
Extratificados, equivocados, abduzidos...
Com um báculo mágico onde todos
Se teletransportam por seu condão.

Em uma cabala caleidoscópica,
Onde todos são involuntariamente envolvidos,
Dando vazão ao próprio zumbido em motete.
Sublevando as almas a patamares nivarnianos
De vagueantes valdIvinos devinianos.

No valhacouto alcantarense
De valetes viris e valentes
Que valsam caleidoscopicamente
Em seu pequeno planeta pungente...
Ambiente de purgação indolente.

Se possível fosse um planeta Alcântara,
De incólumes viventes incomensuráveis,
Doidivanas adoráveis, louváveis, desejáveis!
Seria o firmamento de dossel imensurável
Onde o trono comporta dois soberanos.

Meu planeta Alcântara,
Exista em concepção ontológica,
Nos caiba em sagração hostensória...
Perpetue nossas imemoriais histórias,
Nossos desejos, sonhos e deleitos geniais!

música... Mestre amigo

Puro é o agora com a lágrima que rola...
Que em meu rosto rola...
Em meu rosto rola...

Impossível dizer tua importância!
Meu mestre amigo como era eu antes de ti?
Pegando em tua mão eu aprendi, caminhei e cresci!

Cheguei tímida, acabrunhada, sentei e ti ouvi.
Sonhei ser como és e por pensamentos eu pari
Busquei o teu viés em folhas pardas desonradas, enodoadas.

Puro é o agora com a lágrima que rola...
Que em meu rosto rola...
Em meu rosto rola...

Vaguei na angústia das possibilidades
Trabalhei palavra, letra e papel
Derramei o vinho, a água e o fel

Amassei as idéias, descartei tentativas.
Escrevi o amor e falei de maldade
Desenhei meu sonho em dura realidade.

Puro é o agora com a lágrima que rola...
Que em meu rosto rola...
Em meu rosto rola...

Então mestre divino...Aqui estou lívida
Teu olhar não merece o meu!
Aqui estou tímida, pedindo um pouco do que é teu

Morreria para te dar vida e caminhar contigo
Negaria minha ignorância para estar junto a ti
Calaria minha voz para de novo te ouvir

Puro é o agora com a lágrima que rola...
Que em meu rosto rola...
Em meu rosto rola.
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Dedicado ao meu mestre José de Ribamar Fiquene

Gaiola aberta

Quando perdi meu amor
Desprendi da razão,
Acordei de um sonho....
Perdi o meu mais sólido terreno.

Acreditei no impossível
Amei além do permissível.

Realinhei meus sentimentos,
Paguei com a dor do miserável.
Amargando o gosto da desilusão.

Mas o que quero agora é muito pouco!
Só um instante que eu esteja contigo
Quando o inefável me baste,
Quando me abrace o impossível
E que isso seja tudo!

Que tudo caiba em um único toque!
Que tudo seja o teu olhar dentro do meu...
E que a eternidade caiba no gozo
De um único momento onde digo que te amo!

Voe meu passarinho porque és livre!
Venha de volta quando possível....
Eu estarei sempre aqui!

Sou tua gaiola aberta,
Provida para sempre que chegares.

Sou o teu porto mais seguro,
O anjo que te aguarda,
Teu astro absurdo
Iluminando a vereda obscura...

Beijarei tua boca,
Sussurrando amor aos gemidos...
Suportando a certeza de outros braços...
Dos outros leitos de amor...
Onde eu nunca estou...


Ainda assim...
Voe de volta para mim.
Nunca será tarde
Porque o meu amor
Será sempre agora!

Ainda que aberta...
Só não te esqueças
Que eu continuo gaiola...

Ainda que sem correntes...
Não te descuida
Que eu continuo prisão

Ainda que contigo
Não te enganes...
Sou, precipitadamente, solidão!

O que há de mais caro em mim...
Coloco agora em tua mão,
Por ser eu, refém da paixão!

Espere um pouco...
Não deixes de vir...
Não sejas louco...
Vou estar sempre aqui!
Para arrancar de ti
o mais ingênuo sorriso,
e o gemido mais profundo
e no fim de tudo... dizer-te...
não demora!
Voa logo e de volta
Para essa tua gaiola

Para que o teu sono ressone em meus braços...
Por uma noite sem fim...
Por uma madrugada apenas...
Por mais um dia sem fim...

música... No tempo da maré

É no tempo da maré
A hora de partir
Que a vela segue em pé

.......................................................

Oi! Você diz que já foi
E eu fico a esperar
Que Deus te abençoe

Ai! tem um nó que arrocha o peito
No coração do sujeito
Que na vida leva fé

Ah! na leveza do mar
Um convite a sonhar
Uma vida pra viver

..............................................................

É no tempo da maré
A hora de partir
Que a vela segue em pé
............................................................

Ei! cadê você e eu
Que no beijo se perdeu
Quando a mão era de adeus

Foi no cais que eu te dei
A dor do amor sem lei
Querendo o que não sei

Faz como um menino malino
Um barquinho de papel
Voltando pro destino
....................................

É no tempo da maré
A hora de partir
Que a vela segue em pé

Do éter ao infinito

O infinito espaço celeste que nos cabe é o éter...
Do existir primariamente, do prevenir...
Do cuidar, do não destruir,

Somos todos tripulantes de uma nave sensível...
Belicosa e suave ao mesmo tempo.

Somos produtos de uma consciência inata,
Parceiros de um coexistir,
Famintos e sedentos de éter, de vida, de infinitudes.

Somos o que queremos ser,
O que precisamos ser,
O que podemos ter.

Somos o pó que se esvai,
O vento q sopra suave,
A nuvem branda deslizando no céu.

A água agitada,
E a pedra enfincada no chão de onde nos fazemos raiz.

Somos o sal da terra,
O sol q arde,
A vida e a morte.

Somos uma consciência etérea,
Que existe desde sempre,
Que se esquece de cuidar,
Que precisa viver para aprender a preservar.

Somos parte do incognoscível;
Do inalcançável,
Do inapreensível.

Somos de uma ordem que desafia;
Que degrada,
Que ignora... mas que ainda tem jeito.

Ainda que na última hora...
A excelência do que nos faz humanos
Gritará em consonância com o universo
Em gigantesco movimento de interpenetração dos contrários.

Vivemos sob a égide do consumo;
Da inoperância em tempos globalizados.

Nosso referencial tem agora
Um que de total...

Mas em algum momento
Retomaremos o poder sobre o tempo
Para refutar a desistência da vida
Pelo éter q nos confere espaço coadjuvante em complexo infinito.

O MUNDO DO LABOR

As forças se concentram,
As ferramentas se apresentam,
Globais, cabais... arsenais.
Petrechos de guerra,
Lida de sobrevivência voraz.

A aldeia global
Evoca seus súditos
Oferece um funil estreito
Poucos são os justos,
Escassos são os eleitos

Criança futuro da nação
É povo hoje de pé no chão
Que sonha com tão pouco...
RG, CPF, contrato e certidão,
Esperando título de cidadão.

Mundo da lida acirrada
Faz a fila na calçada,
Estuda um pouco e aguarda
Nunca dorme na parada
Pro mercado te abraçar.

Mundo do labor
Tem técnico, mestre e doutor...
Tem gente que nunca estudou
Tácito é o seu penhor...
Vivendo à margem do andor.


O mundo não está perdido!
Não ande por aí entristecido!
Salve os filhos do Brasil!
Que não são pescadores, poetas nem escritores...
Mas se compadecem com a nossa dor.

voltas devinianas

cada vida traz um mistério,
os mistérios envolvem os amantes,
dos amantes sublimam-se segredos,
os segredos se fazem degradantes.

todos os olhares espelham almas,
as almas se escondem no ser,
o ser nao mais se sabe,
só se sabe agora o nao ser.

das voltas devinianas... sínteses!
sintetizamos as ações de outrém,
o outro é num instante tudo,
e tudo amanhã será ninguém.

da solidão fica o vazio,
vazio que a alma devasta,
devastado é o arado de um nós
nos nós que desatamos e... basta!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Livro: Na solitude do existir as confissões de um parvo. de Cris Mesquita

NA SOLITUDE DO EXISTIR... AS CONFISSÕES DE UM PARVO

O antígeno estranho da solitude humana
É de longe perscrutado pelas ciências
Em busca de respostas mínimas
Que denotem o ser em unicidade.

O que se faz é singular frente
Ao que se descobre, que é incipiente,
De verdade alterável
No vir a ser evolutivo do espírito humano.

A premissa da solidão compromete
A auto-compreensão de seres errantes
Que transmutam em medida própria,
Negando-se em verdades unas.
Itinerantes criaturas que desnudam-se
Por dúvidas, evidenciando lacunas
Do que se faz indizível
Nos limites compensatórios.

Mediante a gota de orvalho jovem
Que verte a folha elíptica da mandrágora
Próxima à flor em formato campanular...

Um ser elementar bate suas asas translúcidas,
Verga-se frente à água espelhada e diz:
_Ó! Deus de verdades, que reflete o que vê, por que o homem busca se julga nunca saber?
O espelho cristalino de água em gota de orvalho
Devolve ao ser a imagem de si mesmo
E este entende que o que há pra conhecer
Cabe na ambígua condição humana.

O ser elementar, ignorando o poder da mandrágora
Por sua substância que produz narcose, se questiona:
_Seria então o homem caçador e guardião?

Um sorriso em seu rosto é revelado pelo espelho...
Ele, por fim, entende que está correta a conclusiva.

Batendo suas asas em movimento frenético
O ser desenha o símbolo do infinito no ar,
Cai tonto e embaraçado...

Percebe seu mundo cansado,
Resolvendo uma saga iniciar.

Irá, de agora em diante,
Buscar conhecer o mundo
Vagar errante, retirante,
Peregrino questionante.
Encetando uma busca pelo literalismo
Converteu-se em pesquisamentos.

Libertou-se em descobertas sem ornatos.

Encontrando um antigo diário
De páginas envelhecidas,
Contendo versos cândidos dizendo assim:
Poemas de um parvo...

“Assumir-se parvo
É desnudar-se de sua loucura.

É ser menos doidivanas que os incólumes.

Poesias ou histerias,
Nada mais revelam
Que os seres em sínteses.

Na parviosa lembrança
Revejo a idade de outrora,
Quando com pouca idade...
Quando com pouca idade...
Cabelo assanhado,
Pés descalços no chão.
A mais doce face de
Límpida ingenuidade... Iluminava Gáia.

A vida então devorada,
Em sonhos feitos a cores que
Traçavam fado e fortuna.

Tudo se meneava leve.

Amando todo sorriso,
Ignorando a evolução.
Tudo ficava tão perfeito
Sobre a visão de cima do cajueiro.

A fruta tinha sabor indescritível...

A mais tenra idade já se tinha vivido
Quando as palavras sinuosas
Saltaram em sílabas perigosas,
Por entre virtuosas frases capciosas.

Todos os elementos,
Sugerem desejos e sentimentos,
Buscando no auge de momentos,
Sigilos que flutuam com o vento.
Rastro na areia quente,
Segue louco, envolvente,
Atraentes infalivelmente,
Como o olhar da serpente.

A língua sugere linguagem,
Fiquem de frente, coragem,
Sem temer a voltagem,
De um corpo em tempestade.

Pois as Lágrimas fazem
Um rio de verdade que
Corre neste comeno.
Soro doloroso…
Alívio da alma.

Gemida ou calada
É constante sentimento...
Nem sempre bom,
Nem sempre mau,
Porém, é meio à alma lavada.

A face encharcada
Por júbilo ou desalento.

É gota de pura fineza
Que fenece em sutileza
De outros juramentos.
Lágrimas que não cessam,
Brotam eternamente
No olho do homem,
Como uma nascente
Fechando cicatrizes mortais.

Quanta irrefutabilidade,
Como aquela que
Apercebe-se na folha selvagem,
Guarda na cor um segredo
De falsa verdade.
Revelando instantes de medo
No veneno da passagem.

Experimentar é preciso!

Não se quer! Se sabe!

Pudera se falar do que não vira?

Pode se dizer de muitas cousas
Verbalizando, em tentativas tolas, o indizível.
Lamenta-se por muitos instantes
De entrar e sair...

Para onde ir?

Caminha-se sem volta desta orbe
De calabouço conspurcado.

Mas, prefere-se o olhar opaco
Ao brilho do baseado.

Baseado falseado,
Antidepressivo e pós-depreciado.

Criatura perdida,
Viciada em dissimilitudes,
Imbricada em problemas crescentes.

Agüenta sem lamúrias.

Um dia passa tua
Indigência sem logro.

Quimeras não se concretizam no horizonte.

Da alma do temerário provém toda a fonte,
Que cria, que come, some, sacia ou dá fome.
Buscas desordeiras e introspectas assolam,
Na leviandade do cepticismo,
Buscando respostas na antilogia,
Que se permite viver o bicho parvo
Na contra mão do labirinto de ruas opostas,
Torturado pelo que foi em vão.

Referente à solidão...
Sonha tolo bicho-homem,
Procurando premissas na imensidão,
Pelo temor de saber-se consciente de si.

Se o medo matasse,
Se o frio cortasse,
E se a morte o alvejasse...
Tomaria um passe.

É! Pois, a vida passa,
Em passos tão lentos,
Pesados de sofrimentos,
Cobranças e tormentos.
Fica então a saudade
De quando vem na lembrança,
Fleches estonteantes
De momentos mágicos
Singulares, ímpares
E gigantes.”
O escritor doidivanas, num retalho de lembrança, vê a imagem de um sorriso doce que vai se desenhando, lentamente, em algo assustador... Quando ainda menino, brincando dentro de casa quebrara um vaso. A mãe, possuída pela ira, o espancara. Desde então o pobre infante expropriara-se de suas próprias lembranças frente aos hematomas gravados por dias em sua pele fina. Numa overdose de cólera, morrera a mãe do infeliz que fora abandonado em sua loucura, depositado em casa de saúde, duvidosa, onde, ao chegar, logo no primeiro instante, encontrara um livro grande, de mil páginas, contendo minúsculas letras... Pobre menino imaginara ser um amigo, aquele livro por nome dicionário. Assim, começara a construir um vocabulário rico, apesar de obsoleto. A criança, desprovida de senso, começara a grafar significados quase incompreensíveis que com o tempo desenharia sua mente em um diário...
Outro dia de construção verbal o desmemoriado ser inicia um texto incompreensível que assim declarava:
“No peito foi dado um nó
Que não folga,
Sufocando o coração de quem supunha
A significância do amor.

Muitos viveram essa maldita dor,
Outros a sentem agora,
Mas ninguém a poderá descrever,
Pois é subjetivamente decorrente
Das peculiaridades de cada ser,
E nem o próprio
Poderá externá-la,
Jamais conseguirá saber
Sem antes entender
De onde verteu tamanho sentimento
De benevolência ágape.
Fluindo tão puro e forte,
inimaginável,
Porém, real.

Num pacto lacrado
Com o selo dos segredos
Perpetuando-se ante a saudade.

E que seja por uma única
Ou última vez.

Renascendo ambivalente.

Procurando em outrém
O que não se define nos nós.

Desaparecendo e contextualizando a parviosa
Excreção de pensamentos tolos.
Que contradição
Que a vida traz.

O sentimento transpõe
Ao outro que dele dispõe,
Para deixar de ser e
Então entender o porquê de
Erguerem-se bandeiras brancas
Que bem leve se levantam,
Destruindo o velho,
Começando o novo,
Idolatrando o belo,
Construindo lucidez
De jubilosa renovação.
A exemplo da árvore da vida
Em sua mais profunda raiz.

Raízes da história de muitas estórias.

Raiz de sonhos e realismos,
Feito lenda onde mula não tem cabeça,
Em noite de lua cheia que pode até
Fazer do homem um bicho cão...

Lendas e tradições originárias de fatos reais
Maravilhosas por suas mentiras geniais...
Realismos sonhados de frente para trás.

Ainda que a rima rume
Aos fatos banais”.

O parvo se perde na constância
Do inconstante cerebral e continua:
“Como vivera o príncipe de fragmentada ideologia..
Onde a história dizia:

Pobre filho do rei!
Nasce o filho do soberano,
Lindo príncipe deitado
Em seu berço d’ouro.

Corre e brinca tão amado,
Já tão cedo está cansado,
Tudo pudera. Que enfado!

Tão jovem, tão chato,
Sem sonhos, pois, tudo é fato.
Sobre a torre,
Na tentativa de se cegar com o sol
A loucura lhe toma (outro parvo na história).

Percebe lá em baixo
A plebe gritando e brincando,
Então pensa:

‘Existe vida além da redoma’.

Contempla tristonho
A firula das crianças.

Percebe um pai amolado
Muito pobre e maltratado.
‘Vai pra casa filho,
Pois, da torre, mira-te a nobreza.

Lamento, Vossa alteza,
Se meu filho o incomoda’.

Então...

Chora o príncipe por ter com certeza.

Chora o pai em meio à pobreza.

Chora a criança que não tem o pão na mesa.

Pobre filho do rei em sua avareza!
Mata-se o príncipe
No aborrimento da nobreza.

Executa-se o homem pobre
Na cegueira da certeza.

Uma salva ao nobre pequeno!...

Vida longa ao pobre filho do rei.

Náufrago indelével,
Viajante insólito,
Derivante sobre o mar.
Sua nau submergiu
E o pesadelo o amparou.

Desesperado e apavorado
Grita de medo e brada de pavor.

No primeiro galho que surgiu do nada
O príncipe se apoiou.

A noite era gigantesca
E infinita em sua cor.

As estrelas no céu
Pareciam fantasmas ao léu.
Por tantas vezes
Quisera afogar-se o nobre homem,
Mas não foi capaz.

A solidão o apavorava,
Mas a necessidade de viver
Fazia-se maior ante a coragem para morrer.

Então entregue ao desespero
Abandonou-se passageiro.
Desmaia o representante da nobreza,
E só na 6a hora do dia
Recobra a memória vazia.

À beira da praia...
O mar cor verde esmeralda
Como sempre sonhara.

Então se desvelara
Que no medo há um pavio,
Mantenedor da coragem
Que faz do homem um pária.
Um herói sem história,
Em suma labuta de glória
Na derrota da vitória.

Náufrago de sua existência...

Triunfante por clemência.

Na vívida luz do desejo
De pérfido olhar brilhante,
Coração em ritmo estonteante.

Só pensa em como estar
E como ser no instante
De outros seres.
Onde encontrar seus pares...

Na rua ou alhures,
Total energia em mística
Desintegração da matéria.

Quando és só luz.

Luz do desejo,
Que reluz
E acende num derrelito gesto
E a tudo reduz,
Ao nada sem nós,
Ao todo a sós.
Flor do poder
Tatuado em algum ser
Fazendo considerações ontológicas
Pela realidade do existir,
Que se faz em si e por si,
Perpetrados pela razão humana.

Numa teoria do conhecimento
Percebe-se a antecedência da metafísica,
Na compreensão da realidade finda.

Aquilo que existe é a realidade,
É o “ser enquanto ser”
Por um ponto de vista analítico, pois,
Só podemos conhecê-lo em profunda análise do “self”.
A simbiose exercida por aquele
Que percebe e o que é percebido,
Resulta na “coisa em si”.

Para ampliar o conhecimento,
A reflexão é o caminho indubitável
E intransponível na descoberta daquilo que é de fato,
Levando a compreensão dos fenômenos múltiplos.

E nessa relação do sujeito com o mundo,
Percebem-se os paralelos do universo
E a realidade das coisas,
Onde esta conexão é o fundamento para a
Transformação do pensamento comum
Para o senso crítico.
E nesse processo perene de conhecimento
Que deriva da consciência,
É que se percebe uma identidade
Entre o sujeito e o mundo.

Ainda que por caminhos parviosos
De transcrita conjectura.

Buscando mergulhar em profundidade
Na alma fascinante.
Permanecendo no domínio dos sentidos
O conhecimento é imperfeito,
Restrito ao mundo dos fenômenos,
De meras aparências
Que giram em ciranda constante
Em perpétuo fluxo.

A episteme é o verdadeiro conhecimento
Trazendo a razão à luz do mundo sensível,
Atingindo o ápice das idéias,
Reino das essências imutáveis
De todas as coisas vigentes...
Dos verdadeiros arquétipos.
Eis o mundo da verdade
Onde o sensível se confunde nas idéias,
Pois é a própria mimese do pensamento.

Demiurgo principia a matéria pré-existente
Organizando o caos inicial.
Caberá ao filósofo desvendar os mistérios
Da realidade sensível
Até estar próximo da luz
Que é a idéia do bem.

Matemática e geometria são prelúdios da ciência
Que é a própria dialética mostrando caminhos
Para todas as essências.
Platão predispôs mundo sensível,
De idéias que culminou
Em espírito aristotélico.

E rejeitou idealismo do mundo das idéias...
Rejeitou...
Rejeitou....
Só o homem concreto existe!
Movimento é passagem de potência para ato.
Passagem de quantidade para qualidade.

De que, com que e por quê.
E ainda que, o que vai ser da semente?

A semente principia a altivez do carvalho,
Formal, final.

Superação das ilusões dos sentidos onde,
Em baixo: terra e água;
Em cima: ar e fogo.
Tudo em seu lugar
Na ordem estática no cosmos
Caminhando sobre o nada
De universos estonteantes.

Rica jornada
De um vazio relevante.

Mágica imensurada
De um instrumento semelhante.
Técnica burlada
De fiel retirante.

Válida caminhada
De um sujeito impressionante.

Servo afilhado
De um santo importante.
AAntagônica profissão de fé
Buscando palavras
No silêncio do papel pardo,
Exprimindo sentimento
Que nasce calado.

Procurando a origem
De tanta ansiedade,
Tendo alma de estrela
E um tanto de vaidade.
Com extremos antagônicos
Elevando a alma em oração,
Enquanto maquilam os rostos dos fiéis...

Aí então, são todos, a própria negação.

Não fazendo o que pensam,
Mesmo com tanta meditação,
Só pensando no que fazem,
Assim é tarde... Que venha a auto-punição.
Senhor de regência e fé,
Buscam-te tanto e não encontram,
Desabafam e desabam em desalento,
Então, novo é o confronto,
Após severo retorno ao interior de si.

Tendo a consciência
De serem universos magníficos
Em seus solitários instantes
Em meio aos outros... Sendo novamente errante.
Protegem-se com orações,
Esbocem, temerosos, algumas canções,
Serenando o semblante no silêncio da oração.

Então, diante de suas confissões,
Dá-lhes, senhor,
A fórmula para calar e ouvir
Em nome da rendição dos ímpios.
Dispensa-se a rima,
Pra pedir ajuda
Aos santos lá de cima.

Em tudo estás...
Onipresente, ciente e eficaz.

Mas, onde estavas minutos atrás?”

Ainda a pouco reconhece-se o parvo
Em sua fremida condição de tese.
Engendrando novos pensamentos
De ordem desordeira desafiando todas as logias:.
“Na introspecta tentativa
De acalentar seu ser derrelito
Num perfil sem atalhos,
Entrando em transe que desnorteia a sintonia,
Então, monta e remonta,
Todas as faculdades do estranho ser...

Fazendo apologias
Às ocasiões intrínsecas do existir.
Premendo nós
Ou adornando laços,
Com ufanias de quem
Não debanda em seus esboços
Ainda que vagando consciente
Em seu oceano infindo.

Explorando investigativo
Todos os seus veios famélicos.

Por sorte se remonta a cada dia
Feito esboço do que se pretendia.
Percebendo-se quem jamais seria,
Antítese que não sintetiza
Em dialética que não transmuta
Sua fremida condição de tese ambígua.

Por fim... Morre o pobre príncipe
Que se perdeu no mar das angústias...”

Espelhando sua loucura própria, o parvo,
Desnudado de sanidade,
Lacrou o diário recheado de verdades.
Fim do diário do pensabundo parvo...

O ser elementar que acabara de iniciar uma saga inédita de encontros e desencontros com si mesmo a partir do reflexo de sua própria imagem na gota de orvalho, suspira aliviado. Encontrara um lunático que entre vácuos de memória descreveu suas agonias mais abscônditas, suas dores mais profundas e seus desejos mais sutis.

Pobre parvo desordeiro... Louco guerreiro. Provou em reticências que a busca do pequenino por respostas ontológicas redefiniram suas dúvidas em eloqüentes questões filosóficas. Superficialmente epistemológicas, incapazes de desdenhar de sua faculdade mental incólume.

O ser elementar dissipou-se em energia atômica, pulverizando-se em questionamentos quase sanados que já não eram sãos, alopraram seu juízo bem dito na loucura do doido descrita no diário.
O éter, meio elástico hipotético em que se propagariam as ondas eletromagnéticas, e cuja existência contradiz os resultados de inúmeras experiências, materializou-se em decorrência da dissipação do curioso, por sobre a folha, em forma de elipse, da mágica mandrágora. Sucumbiu aos seus efeitos substanciais, derivados da narcose que o ser elementar experimentara, ainda que sem se saber-se consumindo a droga ao mirar-se na provocante e irresistível gota de orvalho espelhada. Instante maldito que o condenara aos profundos labirintos de uma possível morte, resultante de uma investigação íntima.

Grande parvo articulado, suscitou o desequilíbrio do altivo ser elementar, com poucas frases desequilibradas em coesão de consciência, desvelando o nôumeno.

Fim.

Confissão da Autora: Sobre o livro Na Solitude do existir...

Irretorquíveis questões instigam e inspiram os loucos dissimulados a poetizarem seus devaneios. NA SOLITUDE DO EXISTIR... AS CONFISSÕES DE UM PARVO retrata a agonia do irrespondível ocultado no cerne de minh’alma.

Escrever este poema significou um suspiro particular, tão único quanto a própria existência.

De novo um suspiro doloroso, tanto quanto o choro desesperado do recém nascido, o grito agonizante da mulher parindo... Dores exprimidas pelo ser abandonado. Ainda que viva em meio a multidões, sua saga é solitária, viver é solitário, escrever é solitário, questionar-se é ainda mais ímpar em solitude.

As confissões do saber não me saber, aliviam minha’lma!
.........................................................................


O silêncio ensurdecedor do universo ecoou
pela primeira vez no instante
do grito sofrido do recém parido,
em seu primeiro rompante
de consciência solitária.

Cristiane Mesquita Gomes

Cristiane bendiz o poema José de Ribamar Fiquene Membro da Academia Imperatrizense de Letras

O esplendor das letras aparece na fonte inesgotável da inspiração.
As palavras dão o brilho ao pensamento acolhedor e liberal.
A cultura projeta o sinal incessante do crescimento. A idéia literária é a magnanimidade. O sonho lírico é a confiança estabelecida. A linguagem poética descobre o segredo da emoção. E chega-nos, novamente, a emérita poetisa Cristiane Mesquita Gomes com o poema “ Na solitude do existir ... As confissões de um parvo.”
As idéias bailam, na sensibilidade, promovendo os segmentos da imensidão
O floreio borda o encantamento na expressiva dedicação, transmitindo as estrofes anunciativas.
Nunca se deixa de afirmar que o estilo poético de Cristiane está delineado no modernismo romântico de rara beleza.
As palavras ampliam as interpretações ajustadas.
Cristiane bendiz o poema em consonância com a idealização. Condigna-se nas estrofes, detalhando o peregrinar dos sonhos que dão o reflexo da convivência. Mede a itinerância da solidão, que faz o recolhimento sentimental. Seu mundo, no tempo, entende a eloqüência que surge da têmpera criteriosa. Seu mundo exterior colhe os fragmentos das disposições, para dirimir as questões encontradas no amadurecimento. As cores bonitas sempre apresentam a imagem da significação verdadeira. As idéias claras prosperam, na proficuidade. Porque foram colhidas nas águas lustrais. Porque traduzem o sentido afirmativo. Quem analisa a certeza com os requisitos da verdade, sabe o que quer e o que fazer. Só não existe tal cabimento aos cegos de vileza e cobiça, porque jamais serão os protagonistas da solidariedade.
O símbolo consentâneo dos momentos evoluídos vem da compreensão.
Evidenciar o mundo é possuir o sentimento humanitário.
A poetisa Cristiane se respalda na grandeza espirituosa de sua cultura, encontrada na fantasia sublime de suas obras.
Parabéns!...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Opinião de Ernesto Friederichs Mandelli

“Mais um trabalho extremamente criativo. Cristiane volta a beber da fonte da fantasia e transforma encontros impossíveis em uma reflexão poética, porém profunda. Seu brincar com as palavras transcendeu mais uma vez. Os significantes carregados de significados nos trazem os Outros, não apenas o de Lacan, mas aqueles que marcam o mundo das letras de todas as épocas. Quem viajar pelas páginas deste novo trabalho terá uma serie de encontros com os quais poderá além do prazer, refletir sobre as idéias apresentadas. Fico honrado pelo convite e feliz por poder voltar a caminhar junto com as fantasias e a criatividade de Cristiane.” - Ernesto Friederichs Mandelli - psicanalista



Ernesto Friederichs Mandelli

http://www.elo.com.br/~mandelli

Sobre a obra: A loucura própria entre seus pares... Encontro erudito Dr. Ozelito Possidônio de Amarante Junior

Quando li este livro, ainda como manuscrito, senti-me transportado para “um ambiente luxuoso e surreal” (p.6), fiquei atordoado, surpreso, tomado por uma sensação de estranho reconhecimento. Vi que aquele local era muito conhecido, que eu sempre estivera lá. Percebi que estava dentro de mim! Esta leitura nos faz pensar em nossas almas, o que há dentro delas, e como é feliz ser louco o suficiente para sermos nós... e ainda, ver que os pensadores falam de si como se fôssemos nós mesmos falando de nós. Cristiane conseguiu nos lembrar muitas frases, nos mostrou novas e nos faz construir muitas outras na viagem fantástica de reconhecimento do lugar que nós mais freqüentamos sem nos darmos conta: nossa vida!
Dr. Ozelito Possidônio de Amarante Junior

PARA APRENDER COM OS MESTRES José Neres (Professor de Literatura e Escritor)

Ao longo de nossa História, o Ser Humano vem mostrando que a capacidade de adaptar-se ao ambiente e adaptar o próprio ambiente são duas de suas maiores características. O químico Lavoisier sintetizou tudo isso em uma frase que corre o mundo: “Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Essa máxima pode ser usada também com relação ao processo literário. Nas letras também tudo se transforma, tudo pode ganhar nova roupagem. De repente, o que parecia fora de moda ressurge com gostinho de novidade. Então, uma frase tantas vezes já dita e ouvida volta ligada a tantas outras também já inúmeras vezes repetidas, e o novo conjunto forma um imenso e intenso mosaico de citações, como já foi dito por Julia Kristeva.
O que lemos nas páginas dos bons autores não se esvai com o fechar dos livros. Muito pelo contrário, permanece vivo em algum lugar importante e protegido de nossa memória. Um dia, as informações que outrora foram prazer, sofrimento ou dor podem voltar em composições que, por mais que pareçam formadas de peças antigas, assumem a aparência de novidade. Aí está a glória da pessoa criativa: fazer surgir o novo de onde os outros seres enxergam apenas o passado sem volta.
Autora de vários livros e leitora experiente, Cristiane Mesquita foi buscar exatamente nesse passado talvez esquecido, porém imorredouro, o fio verbal antigo que, uma vez entrelaçado com a vitalidade dos fios verbais de hoje, servirá para tecer o novo. Assim, partindo de um inusitado encontro de diversos escritores e pensadores, a autora discorre sobre temas diversos que acabam desaguando na melindrosa discussão sobre, verdade, educação e o autoconhecimento.
Homens e mulheres discutem acerca de verdades e possibilidades que marcaram a existência do Ser Humano. Aos poucos, pensadores e escritores que vão do clássico Sócrates até o contemporâneo José de Ribamar Fiquene, passando por Voltaire, Fernando Pessoa. Neruda, Sêneca, Clarice Lispector, Darcy Ribeiro, entre outros. As discussões entre os intelectuais são às vezes brandas, mas não raro ficam ácidas, pois nem sempre é fácil, mesmo para os mais preparados dos homens, conviver com as opiniões contrárias.
De modo bastante agradável, Cristiane Mesquita faz uma bricolagem com recortes estratégicos dos pensamentos mais significativos dos autores que marcaram sua formação intelectual. Alguém pode até achar que “A LOUCURA PRÓPRIA ENTRE SEUS PARES... Encontro erudito” seja apenas uma montagem de frases alheias, mas, conforme foi dito anteriormente, a criatividade está em saber usar o que muitos já usaram, mas com um sabor de novidade.
Nas páginas deste livro, o leitor poderá, ao mesmo tempo, fazer um breve mas consistente passeio pela história da literatura e da filosofia, divertir-se e fazer muitas reflexões sobre a própria condição da nossa limitada existência. Basta traçar seus objetivos e mergulhar no mundo mágico que se descortina por trás de cada página e de cada diálogo que é possível travar com alguns dos maiores mestres do pensamento ocidental.

A LOUCURA PRÓPRIA ENTRE SEUS PARES... Encontro erudito De: Cristiane Mesquita Gomes

Acordei na madrugada... O quarto cheio... Um leve burburinho. Risos soltos entre a fumaça dos charutos. O ar pesava entre as conversas paralelas de vários intelectuais.

Ali estava reunida gente de todos os lugares e dos dois mundos.

Gente que ainda vive sobre a terra e gente que há muito desencarnou.

Era uma conversa animada em clima medieval, mas a cena era atemporal. Poucas mulheres e ,entre elas, eu!

Vestíamos vestidos compridos, e justos no busto. Os homens vestiam calções soltos debaixo da túnica, além de vários tipos de coberturas para as pernas. As mulheres punham redes nos cabelos, usavam véus e panos para cobrir o pescoço. Os homens usavam na cabeça capuzes com pontas compridas. Tanto os homens quanto as mulheres vestiam uma sobreveste copiada dos trajes dos cruzados. Era um ambiente luxuoso e surreal. Comportado e atrevido ao mesmo tempo. Revestimento em madeira com enquadramento adornado de dourado. Por todo o ambiente, afrescos que retratam cenas pitorescas de um tempo esquecido e muito antigo. Era uma antítese do que fora de fato a Idade Média, talvez uma sátira à ideia de tempo de trevas e da improdutividade epistemológica.

Muitos rostos conhecidos, intelectuais de todas as ordens, poetas, filósofos, matemáticos, atores, atrizes, enfim, incontáveis personalidades em conversas exaltadas e animadas.

Pude reconhecer de imediato o sibilar de Clarice Lispector, doce, leve e ensandecida. Tudo ao mesmo tempo em uma só criatura. Um vendaval de emoções. Seus cigarros se emendavam, um no outro para que a névoa do pensamento não se apagasse enquanto recordava com o poeta chileno Pablo Neruda “o beijo caído das alturas invencíveis de sua saudade definida como solidão acompanhada, que ama um passado que não passou, recusando o presente que machuca, cego ante ao convite do futuro, talvez pretendendo responder à pergunta de onde está o menino que ele foi.”

Indaga então Clarice:

-Neruda, caríssimo, e eu, onde estou? Que saudade de mim! “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Neruda gargalha e faz galhofa crendo que Lispector tinha consciência do seu ser diferente e de sua “loucura” conveniente e deveras sapiente.

Então, não mais que de repente interrompe o Fernando Pessoa, compreendendo a dimensão poética da loucura... A loucura ou o fingimento remete ao duro pensamento dele mesmo quando afirma:

-Neruda, meu caro maestro da palavra... “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.”

E eu que entrei no ambiente agora, já eletrizada pelo clima divagativo de elogios à loucura, digo então...

-O que são os versos se não dores disfarçadas...

No seguinte momento agiganta-se o ser da Pessoa que assume não se saber e diz:

-Ouçam todos! “Que grande sonho Ser quem não sabe quem é”. O que penso sobre minha pessoa e as outras entidades do meu ser...

E ele diz a seu próprio ser na pele de Caeiro:

- “Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação”...

E os loucos não cessam por aí... Não é que em um cantinho, acabrunhado por um momento eleva-se em discurso eloqüente meu nobre mestre Ribamar Fiquene, que, lembrando-se de uma de suas crônicas semanais, alardeia:

- O que é a definição de ser se na realidade o concreto se apresenta em cenas cotidianas onde... “A solidariedade se apresenta ligeira, quando a dor contamina, indistintamente, os protagonistas da comédia humana”.

Eu logo pergunto:

-Ora, ora! Então loucura, poesia, solidariedade e comédia estão imbricados nesse contexto poético?

O nobre escritor responde:

-Minha cara professora, a poesia é só a ressonância leve de todas as mais pesadas verdades (risos).

Mas, ao tratar-se de comédia humana, surge o inigualável Balzac, o grande mentor do termo que perfila pérfidos comentários das cenas humanas. Em sua parva eloqüência assume dizendo:

- Nobres pensadores...“Um Eu demasiado poderoso é uma prisão da qual um homem deve evadir-se se deseja gozar plenamente os bens deste mundo.”

O burburinho se inflama após a intromissão de Honoré de Balzac, que chama Voltaire para a discussão.

Balzac então sussurra aos ouvidos do mais louco dos seus conterrâneos:

- Diga-me, nobre filósofo, no intelecto do sistema social cabem soberbas conjecturas sobre os desmandos humanos em sua loucura?

Como o mais maravilhoso entre os loucos, Voltaire, nos desnudou de nossas máscaras... Assumiu que somos uma fraude autêntica quando ventilou com deboche a resposta por entre os dentes, fitando os olhos de Honoré:

-Balzac! O mais rebelde entre os franceses... Digo-te algo em curtas palavras... “Uma frase inteligente não prova nada.”

Risos soltos e gargalhadas encheram o ambiente de curiosidade por parte de todos sobre os temas em questão. Eis que surge o sutil Saramago, poeta português que dita a forma do momento poético atual:

-Caros pensadores...“Em vez de ouvirem os escritores em busca de respostas sobre o que somos, as pessoas precisam ouvir umas às outras, porque nós, autores, não somos mais do que meros trabalhadores da palavra.”

Franzindo a testa, sai de fininho o Voltaire retrucando entre os dentes as exageradas gargalhadas de Balzac:

-Soberbo Francês! Não sabe ele que... “Sob o riso do mundo desfila o ridículo da humanidade.”

Acompanhando o distanciamento do filósofo francês, Saramago, enrubescido, chama pelo poeta libanês que estava próximo e solicita:

-Pois então Gibran, o que pensas sobre o que dissemos sobre a palavra?

Responde com firmeza, de poeta para poeta:

-“Se eu conhecesse a causa da minha ignorância, seria um sábio.”

Gibran, humilde, desinteressado em disputas epistemológicas, vira-se para Clarice e se distrai por um instante com o mundo mágico que é só dela.

Eis que se apresenta um mineirinho, o professor Darcy Ribeiro solicitando um parêntese...

-Saramago, meu filho, Gibran no alto de sua nobre alma jamais admitiria uma opinião cabal sobre assunto tão prolixo, mas se me permite dizer, já que o assunto é a “palavra”, a exemplo do que se vê no Brasil hoje, “mestrado é só para o sujeito mostrar que é alfabetizado, pois metade dos que estão na universidade não sabem ler. Ei!! Durant!! Diz aí teu pensar sobre esse tema...

O escritor americano Will Durant então se aproxima da animada conversa entre Balzac, Saramago, Fiquene e Ribeiro. Responde assim à intrépida solicitação:

-Darcy Ribeiro, meu polêmico sociólogo! Posso então acrescentar que “A educação é o descobrimento progressivo de nossa ignorância.”

Todos concordam e Fiquene relembra:

-Meu nobre Durant! Atenta: “Educar é prevenir o futuro.”

Em um determinado momento, animada com os palpites, arrisquei o meu também vomitando belas palavras que se pretendiam cravadas, um dia, em meu túmulo que diziam...

-Quando se houver extinguido toda a ignorância do mundo... Nada mais haveremos de extinguir.

Um ator americano, que eu sequer conhecia, gritou uma parte para o meu comentário:

-“Todo mundo é ignorante, só que em assuntos diferentes.”

Logo remedei minha ousada frase, citando Montesquieu, quando disse:

-“É preciso estudar muito para saber um pouco.”

Saramago volta à cena lembrando-se de outro louco magnífico:

-Rememoremos o inquestionável Aristóteles quando sugere que... A grandeza não consiste em receber as honras, mas em merecê-las”.

Balzac por muito tempo calado, já um tanto embriagado, vira-se abruptamente em busca de mais vinho e tropeça no célebre matemático inglês Bertrand Russell, que, estando atento aos comentários anteriores, fuzila Honoré com duras palavras:

-Presta atenção, Balzac! Guarda o que te digo agora...“Quão frágil e inerme é a razão. No entanto, é nosso único instrumento.”

Saramago, que não gosta de birras e rixas, reconhece Albert Einstein e solicita sua participação na conversa:

-Einstein!! Meu caro! O que dizes para apaziguar tão ásperos comentários?

O excêntrico pensador mostra a sua língua, fazendo pouco dos demais, e então afirma:

-Não tenho tempo para devaneios filosóficos, mas penso que... “A mais grave das faltas é não ter consciência de falta alguma.”

E volto a Lispector que depois de levar Gibran a um sono profundo, fixa os olhos em Neruda, segura seu queixo com delicadeza e sussurra quase dentro de sua boca:

-Neruda... Não ouse esquecer o que agora te digo! “O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo”.

Pablo Neruda, o sedutor, sela um pacto de silêncio com Clarice ao calar-lhe a boca com um doce beijo.

Um famoso orador latino, Sêneca, assistindo à cena, lamenta com célebre frase:

-Excelentíssima poeta! Fique atenta aos falsos encantos de Pablo Neruda. “Ninguém consegue usar máscara por muito tempo”.

Goethe, em aplausos à ousadia de Neruda, segura com força o braço de Sêneca e o desafia à uma nova interpretação da cena.

-Ouvi, Sêneca, pois só te direi uma vez!: “Seja lá o que você souber fazer, faça. Existe gênio, poder e mágica na audácia.”

Mahatma, auferido por Fiquene acena em direção à Sêneca e enfatiza a insatisfação de Goeth ao dizer:

-“O único tirano que aceito neste mundo é a voz silenciosa dentro de mim, a consciência.”

Kierkegaard, distante em um canto da mágica sala, pede licença à Miguel de Cervantes e ajunta em pensamentos:

-Gandhi, meu nobre! Se me permite um adendo: sobremaneira, “Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. E aventurar-se no sentido mais elevado é precisamente tomar consciência de si próprio.”

Miguel, que o seguira, não deixa por menos e retruca:

-“A inveja sempre vê tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em coisas grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas.”

As duras palavras do espanhol assustam e convidam a talentosíssima diva do cinema nacional brasileiro Fernanda Montenegro a consubstanciar com os demais pensamentos:

-Lispector, não te deixe acabrunhar pelas palavras incandescentes dos covardes: “A palavra não é apenas um conjunto de sinais gráficos. Nela há sangue, suor e lágrimas.”

Fernanda abraça docemente Clarice Lispector e acaricia a face de Neruda, os causadores da cena polêmica.

Eu, nesse instante, conversava baixinho com a filósofa Simone de Beauvoir que me convencia da subserviência feminina de outrora e também hodierna...

Dizia Simone: “Não se nasce mulher. Vira-se. A verdadeira mulher é um produto artificial que a civilização fabrica como outrora se fabricavam os castrati. Seus pretensos instintos de coqueteria, de docilidade, lhe são insuflados como ao homem é insuflado o orgulho fálico.”

Absorvida pelo profundo pensar da grande companheira de Sartre fui abduzida pela cena intrigante que compreendia Clarice e o querido Neruda.

A essa altura, todos na sala comentavam ao mesmo tempo sobre o ocorrido, uns gritavam: Bravo!! Bravíssimo!! Outros criticavam... Mas um entre eles ainda não havia se pronunciado... O escritor tcheco Franz Kafka, que, dirigindo-se à Neruda, diz com calor no coração e ternura nos olhos:

-Atenta, Pablo, para o que vou dizer-te: “Os homens tornam-se maus e culpados porque falam e agem sem antever os resultados de suas palavras e atos.”

Uma valsa ressoa ao fundo... Ah! É Beethoven, o mais louco dos insanos... Como seria essa peça teatral sem Beethoven?

Então Saramago cumprimenta um conterrâneo, Manoel Torga que, ao abraçar o amigo, completa a retórica sobre a poesia e a loucura:

-Saramago! Meu amigo! Só não te esquece de que “O poeta é um rebelde que sabe que a poesia só subverte porque transfigura.”

Eis que adentra no recinto o famoso e mais profundo dos pensadores... Sócrates. Traz consigo muitas uvas, vinhos e jovens mancebos e sob os aplausos da mais refinada plateia esbraveja em maiêutica agonia epistêmica:

-“Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.”

Um silêncio profundo e desconexo pesa no ar desse ambiente.

Continua Sócrates

-“Conhece-te a ti mesmo.”

Todos o aplaudem e eu, entusiasmada, abandono as finas e delicadas mãos de Simone afastando-me da filósofa moderna para ir ao encontro do antigo e sarcástico pensador. Então interpelo o magnífico mito:

-O que sabes de nós? Que sentido tem tudo? Quem somos então Sócrates?

Com o mais implacável sarcasmo o filósofo me diminui ao responder.

-“Só sei que nada sei.”

Mas, sem querer me dar por vencida na ciranda das vaidades eu insisto em saber:

-Caríssimo Sócrates, pela honra da ontologia que nos cabe, defina-nos, eu te imploro!

O magnífico responde:

-“A maneira mais fácil e mais segura de vivermos honradamente, consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser.”

O ping-pong de perguntas e respostas evasivas continua...

- Diga-nos sobre o bem e o mal pelo menos...

Sócrates define...

-“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância.”

Ruborizo e percebo-me perdida ante à magnífica pessoa que espreme meu cérebro e embaraça-me com sabedoria. Ao perceber o meu rubor o filósofo engolfa-me outra vez com seus pensamentos maiêuticos e finaliza:

-“O próprio sábio cora das suas palavras, quando elas surpreendem as suas ações.”

Eu então solicito ao maestro que toque para que todos dancem e confraternizem-se.

Surge a música apaziguadora de todas as intempéries discursivas, o Danúbio Azul, de Strauss. A névoa se dissipa e meu rubor exprime a vergonha do nada saber.

A música vai se distanciando de meus ouvidos...

As imagens se desfazem em fumaça...

Os risos parecem ecos ao léu...

Acordo de um sono profundo com o meu pai (outro grande pensador, Manoel Gomes) me chamando...

-Ei moça! Está na hora da partida...

Eu me recuso argumentando meio sonada:

-Não pai!! Todos os pensamentos couberam aqui... Eu vi e ouvi tantos... Aprendi que ainda não sei nada! Poderia sonhar a vida toda com aqueles monstros do grande pensar. É tão mais fácil sonhar papai! É tão mais fácil analisar a própria fraude! É como olhar-se no espelho e desnudar-se... Só as verdades do que não somos é que se mantêm edificadas.

Uma lágrima rola pelo meu rosto com expressão aturdida, e o pai diz:

-Ei! Minha filha, foi só um sonho... Calma!! Lembra-te quando eu disse que “...recordaria apenas de alguns galhos da Árvore do Meu Eu que adquiriram de sua gema a responsabilidade de desenvolverem-se e darem bons frutos? Pois é! Assim será porque os outros galhos murcharam e caíram no esquecimento, não para serem apenas lixo sobre a terra, mas sim para adubarem e permitirem que a Árvore do Meu Eu continue a sua presença nesta vida com todo o vigor”... Então! Vai lá e supera! Dê continuidade à ciranda constante do devir.

Qualquer coisa volta!! Eu estarei sempre aqui!

Então... Aceitei a partida e encetei mais uma jornada ao breu incógnito do incognoscível.

FIM