quarta-feira, 14 de abril de 2010

Livro: Na solitude do existir as confissões de um parvo. de Cris Mesquita

NA SOLITUDE DO EXISTIR... AS CONFISSÕES DE UM PARVO

O antígeno estranho da solitude humana
É de longe perscrutado pelas ciências
Em busca de respostas mínimas
Que denotem o ser em unicidade.

O que se faz é singular frente
Ao que se descobre, que é incipiente,
De verdade alterável
No vir a ser evolutivo do espírito humano.

A premissa da solidão compromete
A auto-compreensão de seres errantes
Que transmutam em medida própria,
Negando-se em verdades unas.
Itinerantes criaturas que desnudam-se
Por dúvidas, evidenciando lacunas
Do que se faz indizível
Nos limites compensatórios.

Mediante a gota de orvalho jovem
Que verte a folha elíptica da mandrágora
Próxima à flor em formato campanular...

Um ser elementar bate suas asas translúcidas,
Verga-se frente à água espelhada e diz:
_Ó! Deus de verdades, que reflete o que vê, por que o homem busca se julga nunca saber?
O espelho cristalino de água em gota de orvalho
Devolve ao ser a imagem de si mesmo
E este entende que o que há pra conhecer
Cabe na ambígua condição humana.

O ser elementar, ignorando o poder da mandrágora
Por sua substância que produz narcose, se questiona:
_Seria então o homem caçador e guardião?

Um sorriso em seu rosto é revelado pelo espelho...
Ele, por fim, entende que está correta a conclusiva.

Batendo suas asas em movimento frenético
O ser desenha o símbolo do infinito no ar,
Cai tonto e embaraçado...

Percebe seu mundo cansado,
Resolvendo uma saga iniciar.

Irá, de agora em diante,
Buscar conhecer o mundo
Vagar errante, retirante,
Peregrino questionante.
Encetando uma busca pelo literalismo
Converteu-se em pesquisamentos.

Libertou-se em descobertas sem ornatos.

Encontrando um antigo diário
De páginas envelhecidas,
Contendo versos cândidos dizendo assim:
Poemas de um parvo...

“Assumir-se parvo
É desnudar-se de sua loucura.

É ser menos doidivanas que os incólumes.

Poesias ou histerias,
Nada mais revelam
Que os seres em sínteses.

Na parviosa lembrança
Revejo a idade de outrora,
Quando com pouca idade...
Quando com pouca idade...
Cabelo assanhado,
Pés descalços no chão.
A mais doce face de
Límpida ingenuidade... Iluminava Gáia.

A vida então devorada,
Em sonhos feitos a cores que
Traçavam fado e fortuna.

Tudo se meneava leve.

Amando todo sorriso,
Ignorando a evolução.
Tudo ficava tão perfeito
Sobre a visão de cima do cajueiro.

A fruta tinha sabor indescritível...

A mais tenra idade já se tinha vivido
Quando as palavras sinuosas
Saltaram em sílabas perigosas,
Por entre virtuosas frases capciosas.

Todos os elementos,
Sugerem desejos e sentimentos,
Buscando no auge de momentos,
Sigilos que flutuam com o vento.
Rastro na areia quente,
Segue louco, envolvente,
Atraentes infalivelmente,
Como o olhar da serpente.

A língua sugere linguagem,
Fiquem de frente, coragem,
Sem temer a voltagem,
De um corpo em tempestade.

Pois as Lágrimas fazem
Um rio de verdade que
Corre neste comeno.
Soro doloroso…
Alívio da alma.

Gemida ou calada
É constante sentimento...
Nem sempre bom,
Nem sempre mau,
Porém, é meio à alma lavada.

A face encharcada
Por júbilo ou desalento.

É gota de pura fineza
Que fenece em sutileza
De outros juramentos.
Lágrimas que não cessam,
Brotam eternamente
No olho do homem,
Como uma nascente
Fechando cicatrizes mortais.

Quanta irrefutabilidade,
Como aquela que
Apercebe-se na folha selvagem,
Guarda na cor um segredo
De falsa verdade.
Revelando instantes de medo
No veneno da passagem.

Experimentar é preciso!

Não se quer! Se sabe!

Pudera se falar do que não vira?

Pode se dizer de muitas cousas
Verbalizando, em tentativas tolas, o indizível.
Lamenta-se por muitos instantes
De entrar e sair...

Para onde ir?

Caminha-se sem volta desta orbe
De calabouço conspurcado.

Mas, prefere-se o olhar opaco
Ao brilho do baseado.

Baseado falseado,
Antidepressivo e pós-depreciado.

Criatura perdida,
Viciada em dissimilitudes,
Imbricada em problemas crescentes.

Agüenta sem lamúrias.

Um dia passa tua
Indigência sem logro.

Quimeras não se concretizam no horizonte.

Da alma do temerário provém toda a fonte,
Que cria, que come, some, sacia ou dá fome.
Buscas desordeiras e introspectas assolam,
Na leviandade do cepticismo,
Buscando respostas na antilogia,
Que se permite viver o bicho parvo
Na contra mão do labirinto de ruas opostas,
Torturado pelo que foi em vão.

Referente à solidão...
Sonha tolo bicho-homem,
Procurando premissas na imensidão,
Pelo temor de saber-se consciente de si.

Se o medo matasse,
Se o frio cortasse,
E se a morte o alvejasse...
Tomaria um passe.

É! Pois, a vida passa,
Em passos tão lentos,
Pesados de sofrimentos,
Cobranças e tormentos.
Fica então a saudade
De quando vem na lembrança,
Fleches estonteantes
De momentos mágicos
Singulares, ímpares
E gigantes.”
O escritor doidivanas, num retalho de lembrança, vê a imagem de um sorriso doce que vai se desenhando, lentamente, em algo assustador... Quando ainda menino, brincando dentro de casa quebrara um vaso. A mãe, possuída pela ira, o espancara. Desde então o pobre infante expropriara-se de suas próprias lembranças frente aos hematomas gravados por dias em sua pele fina. Numa overdose de cólera, morrera a mãe do infeliz que fora abandonado em sua loucura, depositado em casa de saúde, duvidosa, onde, ao chegar, logo no primeiro instante, encontrara um livro grande, de mil páginas, contendo minúsculas letras... Pobre menino imaginara ser um amigo, aquele livro por nome dicionário. Assim, começara a construir um vocabulário rico, apesar de obsoleto. A criança, desprovida de senso, começara a grafar significados quase incompreensíveis que com o tempo desenharia sua mente em um diário...
Outro dia de construção verbal o desmemoriado ser inicia um texto incompreensível que assim declarava:
“No peito foi dado um nó
Que não folga,
Sufocando o coração de quem supunha
A significância do amor.

Muitos viveram essa maldita dor,
Outros a sentem agora,
Mas ninguém a poderá descrever,
Pois é subjetivamente decorrente
Das peculiaridades de cada ser,
E nem o próprio
Poderá externá-la,
Jamais conseguirá saber
Sem antes entender
De onde verteu tamanho sentimento
De benevolência ágape.
Fluindo tão puro e forte,
inimaginável,
Porém, real.

Num pacto lacrado
Com o selo dos segredos
Perpetuando-se ante a saudade.

E que seja por uma única
Ou última vez.

Renascendo ambivalente.

Procurando em outrém
O que não se define nos nós.

Desaparecendo e contextualizando a parviosa
Excreção de pensamentos tolos.
Que contradição
Que a vida traz.

O sentimento transpõe
Ao outro que dele dispõe,
Para deixar de ser e
Então entender o porquê de
Erguerem-se bandeiras brancas
Que bem leve se levantam,
Destruindo o velho,
Começando o novo,
Idolatrando o belo,
Construindo lucidez
De jubilosa renovação.
A exemplo da árvore da vida
Em sua mais profunda raiz.

Raízes da história de muitas estórias.

Raiz de sonhos e realismos,
Feito lenda onde mula não tem cabeça,
Em noite de lua cheia que pode até
Fazer do homem um bicho cão...

Lendas e tradições originárias de fatos reais
Maravilhosas por suas mentiras geniais...
Realismos sonhados de frente para trás.

Ainda que a rima rume
Aos fatos banais”.

O parvo se perde na constância
Do inconstante cerebral e continua:
“Como vivera o príncipe de fragmentada ideologia..
Onde a história dizia:

Pobre filho do rei!
Nasce o filho do soberano,
Lindo príncipe deitado
Em seu berço d’ouro.

Corre e brinca tão amado,
Já tão cedo está cansado,
Tudo pudera. Que enfado!

Tão jovem, tão chato,
Sem sonhos, pois, tudo é fato.
Sobre a torre,
Na tentativa de se cegar com o sol
A loucura lhe toma (outro parvo na história).

Percebe lá em baixo
A plebe gritando e brincando,
Então pensa:

‘Existe vida além da redoma’.

Contempla tristonho
A firula das crianças.

Percebe um pai amolado
Muito pobre e maltratado.
‘Vai pra casa filho,
Pois, da torre, mira-te a nobreza.

Lamento, Vossa alteza,
Se meu filho o incomoda’.

Então...

Chora o príncipe por ter com certeza.

Chora o pai em meio à pobreza.

Chora a criança que não tem o pão na mesa.

Pobre filho do rei em sua avareza!
Mata-se o príncipe
No aborrimento da nobreza.

Executa-se o homem pobre
Na cegueira da certeza.

Uma salva ao nobre pequeno!...

Vida longa ao pobre filho do rei.

Náufrago indelével,
Viajante insólito,
Derivante sobre o mar.
Sua nau submergiu
E o pesadelo o amparou.

Desesperado e apavorado
Grita de medo e brada de pavor.

No primeiro galho que surgiu do nada
O príncipe se apoiou.

A noite era gigantesca
E infinita em sua cor.

As estrelas no céu
Pareciam fantasmas ao léu.
Por tantas vezes
Quisera afogar-se o nobre homem,
Mas não foi capaz.

A solidão o apavorava,
Mas a necessidade de viver
Fazia-se maior ante a coragem para morrer.

Então entregue ao desespero
Abandonou-se passageiro.
Desmaia o representante da nobreza,
E só na 6a hora do dia
Recobra a memória vazia.

À beira da praia...
O mar cor verde esmeralda
Como sempre sonhara.

Então se desvelara
Que no medo há um pavio,
Mantenedor da coragem
Que faz do homem um pária.
Um herói sem história,
Em suma labuta de glória
Na derrota da vitória.

Náufrago de sua existência...

Triunfante por clemência.

Na vívida luz do desejo
De pérfido olhar brilhante,
Coração em ritmo estonteante.

Só pensa em como estar
E como ser no instante
De outros seres.
Onde encontrar seus pares...

Na rua ou alhures,
Total energia em mística
Desintegração da matéria.

Quando és só luz.

Luz do desejo,
Que reluz
E acende num derrelito gesto
E a tudo reduz,
Ao nada sem nós,
Ao todo a sós.
Flor do poder
Tatuado em algum ser
Fazendo considerações ontológicas
Pela realidade do existir,
Que se faz em si e por si,
Perpetrados pela razão humana.

Numa teoria do conhecimento
Percebe-se a antecedência da metafísica,
Na compreensão da realidade finda.

Aquilo que existe é a realidade,
É o “ser enquanto ser”
Por um ponto de vista analítico, pois,
Só podemos conhecê-lo em profunda análise do “self”.
A simbiose exercida por aquele
Que percebe e o que é percebido,
Resulta na “coisa em si”.

Para ampliar o conhecimento,
A reflexão é o caminho indubitável
E intransponível na descoberta daquilo que é de fato,
Levando a compreensão dos fenômenos múltiplos.

E nessa relação do sujeito com o mundo,
Percebem-se os paralelos do universo
E a realidade das coisas,
Onde esta conexão é o fundamento para a
Transformação do pensamento comum
Para o senso crítico.
E nesse processo perene de conhecimento
Que deriva da consciência,
É que se percebe uma identidade
Entre o sujeito e o mundo.

Ainda que por caminhos parviosos
De transcrita conjectura.

Buscando mergulhar em profundidade
Na alma fascinante.
Permanecendo no domínio dos sentidos
O conhecimento é imperfeito,
Restrito ao mundo dos fenômenos,
De meras aparências
Que giram em ciranda constante
Em perpétuo fluxo.

A episteme é o verdadeiro conhecimento
Trazendo a razão à luz do mundo sensível,
Atingindo o ápice das idéias,
Reino das essências imutáveis
De todas as coisas vigentes...
Dos verdadeiros arquétipos.
Eis o mundo da verdade
Onde o sensível se confunde nas idéias,
Pois é a própria mimese do pensamento.

Demiurgo principia a matéria pré-existente
Organizando o caos inicial.
Caberá ao filósofo desvendar os mistérios
Da realidade sensível
Até estar próximo da luz
Que é a idéia do bem.

Matemática e geometria são prelúdios da ciência
Que é a própria dialética mostrando caminhos
Para todas as essências.
Platão predispôs mundo sensível,
De idéias que culminou
Em espírito aristotélico.

E rejeitou idealismo do mundo das idéias...
Rejeitou...
Rejeitou....
Só o homem concreto existe!
Movimento é passagem de potência para ato.
Passagem de quantidade para qualidade.

De que, com que e por quê.
E ainda que, o que vai ser da semente?

A semente principia a altivez do carvalho,
Formal, final.

Superação das ilusões dos sentidos onde,
Em baixo: terra e água;
Em cima: ar e fogo.
Tudo em seu lugar
Na ordem estática no cosmos
Caminhando sobre o nada
De universos estonteantes.

Rica jornada
De um vazio relevante.

Mágica imensurada
De um instrumento semelhante.
Técnica burlada
De fiel retirante.

Válida caminhada
De um sujeito impressionante.

Servo afilhado
De um santo importante.
AAntagônica profissão de fé
Buscando palavras
No silêncio do papel pardo,
Exprimindo sentimento
Que nasce calado.

Procurando a origem
De tanta ansiedade,
Tendo alma de estrela
E um tanto de vaidade.
Com extremos antagônicos
Elevando a alma em oração,
Enquanto maquilam os rostos dos fiéis...

Aí então, são todos, a própria negação.

Não fazendo o que pensam,
Mesmo com tanta meditação,
Só pensando no que fazem,
Assim é tarde... Que venha a auto-punição.
Senhor de regência e fé,
Buscam-te tanto e não encontram,
Desabafam e desabam em desalento,
Então, novo é o confronto,
Após severo retorno ao interior de si.

Tendo a consciência
De serem universos magníficos
Em seus solitários instantes
Em meio aos outros... Sendo novamente errante.
Protegem-se com orações,
Esbocem, temerosos, algumas canções,
Serenando o semblante no silêncio da oração.

Então, diante de suas confissões,
Dá-lhes, senhor,
A fórmula para calar e ouvir
Em nome da rendição dos ímpios.
Dispensa-se a rima,
Pra pedir ajuda
Aos santos lá de cima.

Em tudo estás...
Onipresente, ciente e eficaz.

Mas, onde estavas minutos atrás?”

Ainda a pouco reconhece-se o parvo
Em sua fremida condição de tese.
Engendrando novos pensamentos
De ordem desordeira desafiando todas as logias:.
“Na introspecta tentativa
De acalentar seu ser derrelito
Num perfil sem atalhos,
Entrando em transe que desnorteia a sintonia,
Então, monta e remonta,
Todas as faculdades do estranho ser...

Fazendo apologias
Às ocasiões intrínsecas do existir.
Premendo nós
Ou adornando laços,
Com ufanias de quem
Não debanda em seus esboços
Ainda que vagando consciente
Em seu oceano infindo.

Explorando investigativo
Todos os seus veios famélicos.

Por sorte se remonta a cada dia
Feito esboço do que se pretendia.
Percebendo-se quem jamais seria,
Antítese que não sintetiza
Em dialética que não transmuta
Sua fremida condição de tese ambígua.

Por fim... Morre o pobre príncipe
Que se perdeu no mar das angústias...”

Espelhando sua loucura própria, o parvo,
Desnudado de sanidade,
Lacrou o diário recheado de verdades.
Fim do diário do pensabundo parvo...

O ser elementar que acabara de iniciar uma saga inédita de encontros e desencontros com si mesmo a partir do reflexo de sua própria imagem na gota de orvalho, suspira aliviado. Encontrara um lunático que entre vácuos de memória descreveu suas agonias mais abscônditas, suas dores mais profundas e seus desejos mais sutis.

Pobre parvo desordeiro... Louco guerreiro. Provou em reticências que a busca do pequenino por respostas ontológicas redefiniram suas dúvidas em eloqüentes questões filosóficas. Superficialmente epistemológicas, incapazes de desdenhar de sua faculdade mental incólume.

O ser elementar dissipou-se em energia atômica, pulverizando-se em questionamentos quase sanados que já não eram sãos, alopraram seu juízo bem dito na loucura do doido descrita no diário.
O éter, meio elástico hipotético em que se propagariam as ondas eletromagnéticas, e cuja existência contradiz os resultados de inúmeras experiências, materializou-se em decorrência da dissipação do curioso, por sobre a folha, em forma de elipse, da mágica mandrágora. Sucumbiu aos seus efeitos substanciais, derivados da narcose que o ser elementar experimentara, ainda que sem se saber-se consumindo a droga ao mirar-se na provocante e irresistível gota de orvalho espelhada. Instante maldito que o condenara aos profundos labirintos de uma possível morte, resultante de uma investigação íntima.

Grande parvo articulado, suscitou o desequilíbrio do altivo ser elementar, com poucas frases desequilibradas em coesão de consciência, desvelando o nôumeno.

Fim.

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